TUDO SOBRE OS HERÓIS BRAZUCAS

ENTREVISTA COM EMIR RIBEIRO

ENTREVISTA PARA O JORNAL "SPOTLIGHT" (REFLETOR)

Traduzido por Paulo Lima

REFLETOR - Emir Ribeiro foi desenhista e arte-finalista de alguns dos títulos de quadrinhos mais vendidos nos EUA nos últimos dez anos, mas seu ótimo trabalho e pode ser um dos segredos mais mantidos da indústria dos quadrinhos. Ele trabalhou em vários projetos, como Vingadores, Glory e Hulk contra Hercules. Mas ocasionalmente, teve o nome aparecido nos créditos. Por que? Bem, editores podem se lembrar do período de dois anos no qual contrataram o "Estúdio Deodato", que estava em funcionamento. Embora sendo um bom desenhista, Emir Ribeiro era o arte-finalista principal do Estúdio e ajudou a manter a consistência de estilo de Mike Deodato Jr. Mesmo porque, no passado, o próprio chegou a ensinar para Deodato como finalizar. O Estúdio hoje é história passada, e seus outros membros, como os desenhistas Ed Benes, Mozart Couto, e Carlos Mota - junto com o outro arte-finalista René Micheletti - foram cuidar dos seus próprios projetoss. Emir Ribeiro continuou concentrado em ajudar Deodato na arte-final de projetos como "As Guerreiras de Jade" e "Lady Death".

"Eu me desapontei vários vezes, quando editores prometiam colocar meu nome nos créditos, mas acabavam decidindo apenas citar Deodato como autor. O próprio Deodato fez objeções quanto a esse expediante. " Diz o Emir. "Ou eles simplesmente creditaram todo o trabalho ao " Estúdio Deodato", sem citar os nomes dos integrante.

ENTREVISTA COM EMIR RIBEIRO:

REFLETOR: Comecemos no princípio…

EMIR: Claro! Comecemos do princípio, que nós alcancemos o fim, não é ?

REFLETOR (Riso):

EMIR: Eu comecei trabalhando como escritor, artista e arte-finalista para um Jornal Escolar em 1972. Em 1978 comecei publicando meu próprio projeto como uma revista alternativa, até que 1985 fui contratado para fazer revistas em quadrinhos de sexo, com material adulto para Editoras de São Paulo. Até, que, em 1993 entrei para o mercado norte-americano, finalizando o título "Os Protetores" da Malibu Comics.

REFLETOR: Você chegou a trabalhar para os títulos super-coloridos da Editora Innovation?

EMIR: Sim. Infelizmente, eu fiz até o lápis de um número de "Quantum Leap" ("Contratempos" ou "Máquina do Destino", no Brasil) que nunca chegou a ser impresso, em 1994, pois o título foi cancelado por problemas no licenciamento da série, inclusive houve a mudança para a Acclaim Comics.

REFLETOR: O que mais você fez, que faz parte de seu currículo?

EMIR: Eu também fiz teste de amostras para a revista do "Arquivo X", além da outra série "Sombras Escuras", mas não fui aprovado. Também tentei a "Continuity Comics", de Neal Adams, e cheguei a fazer algumas partes nas revistas dele, mas houve problema de pagamento, e assim, parei de trabalhar. cronometrando aceitando tarefas foi um pouco menos que perfeito.

REFLETOR: E sobre Glory?

EMIR: Eu fiz muita coisa em Glory durante mais de um ano, principalmente arte-final e finalização, entretanto eu fiz algumas páginas à lápis e algumas pin-ups à tinta. Por alguma razão, o Estúdio Extreme chegou a remover minha assinatura dos desenhos e colou a assinatura de Deodato sobre a minha. Uma coisa realmente muito estranha..

REFLETOR: Mas nós divagamos…

Partindo do princípio…

EMIR: Eu nasci em 7 de abril de 1959, na Paraíba, Brasil. Eu ainda vivo aqui.

REFLETOR: Qual foi seu treinamento em arte? Você frequentou alguma escola de arte?

EMIR: Não. Nunca fui para qualquer escola de arte. Aprendi sozinho - praticando todo dia, antes de ir trabalhar.

REFLETOR: Você mencionou alguns títulos nos que você trabalhou. Quais outros lhe vêm à mente?

EMIR: Publiquei bastante trabalhos nos E.U.A. mas é difícil achar meu nome neles. É ocaso de "Hulk contra Hercules", "Vingadores", e outros. Fui creditado em "Os Protetores", "Homem de Guerra", "Mr. T e sua Força T", "Turok", "Glory", "Risc", "O Quarto Mundo de Jack Kirby", "Avengelyne/Prophet", "Hellina", e outros que eu não lembro agora.

REFLETOR: E sobre sua família? Você vem de uma casa cheia de artistas?

EMIR: Eu sou o mais velho de 9 irmãos. Sou casado, e eu tenho 2 filhos - e eu também sou o único artista de quadrinhos da minha família.

REFLETOR: Você já esteve nos Estados Unidos?

EMIR: Não. Eu nunca fui para os E.U.A.

REFLETOR: Está em seu planos ir a alguma convenção americana de quadrinhos?

EMIR: Se fosse depender de minhas finanças atuais eu não conseguiria ir, mas se eu conseguisse um trabalho regular em algum título fixo, ou se uma Editora me convidasse e me trouxesse, eu ficaria contente em ir !

Estilo e Inspirações

REFLETOR: Como foi o início de seu trabalho como quadrinista ?

EMIR: Quando eu comecei, embora possa parecer difícil de acreditar, eu nunca segui qualquer estilo. Eu sempre quis ter meu próprio estilo, e isso no princípio, era ruim - pois certos editores aqui no Brasil querem que você siga o estilo de outra pessoa Mas quando comecei trabalhando para companhias americanas, eu pude usar meu próprio estilo, e eu penso que melhoro cada vez mais.

REFLETOR: Você tem estilos múltiplos, certo?

EMIR: É. Já fiz o estilo clássico, ficção científica, e claro, super-herói. Versatilidade é a chave para uma boa carreira boa, eu acho.

REFLETOR: Você tem algum estilo favorito que gosta de desenhar?

EMIR: Eu sempre gostei de trabalhar com heróis, mas eu trabalhei com tipos diferentes de personagens antes. Eu gosto de fazer cenas escuras, noturnas, e adoro desenhar mulheres.

REFLETOR: Como é um dia típico em sua vida, como desenhista ?

EMIR: Bem, Se eu estou trabalhando em uma revista, eu normalmente começo às 8:00 da manhã e vou até 12:00. Depois do almoço, eu tiro um cochilo rápido e então volto trabalhar até à noite. Eu tenho outro trabalho de meio período na Paraíba, porque você nunca sabe se vai ter trabalho de quadrinhos ou não.

REFLETOR: O que inspirado seu amor óbvio pelos quadrinhos?

EMIR: Eu tinha oito anos quando eu adquiri a primeiro revista da Marvel - depois de assistir aos desenhos animados na televisão. Depois disso, as revistas saíram aqui, e eu comecei comprando e colecionando. De fato, eu ainda compro e coleciono! Comecei a tentar reproduzir alguns desenhos das revistas, e logo depois estava criando meus próprios personagens.

REFLETOR: Quais são seus artistas de quadrinhos preferidos?

EMIR: Tenho muitos, mas mencionarei os mais importantes. Desenhista: Jack Kirby. Arte-finalista: Scott Williams. Escritor: Frank Miller. Filmes: Terror. Comida: Lasanha. Livro: O Dracula de Bram Stoker. Música: Qualquer tipo.

REFLETOR: Quais seus passatempos ? O que faz você em seu tempo livre?

EMIR: Meu passatempo: Eu coleciono revistas em quadrinmhos. Tempo livre: Eu não tenho tempo livre!

REFLETOR: Muitas artistas dizem ter feito parte de gangues juvenis. Você já esteve em alguma gangue?

EMIR: Uma quadrilha? De modo algum. Quero eles bem longe de mim! (Riso)

O Trabalho Moral & Mais

REFLETOR: Durante os anos que você foi assistente de Mike Deodato, fazendo artes para o Estúdio Extreme, o qual apagou várias vezes seu nome dos créditos... você tem algo a lamentar?

EMIR: Eu não sei se fui "de fato o assistente " de Deodato, mas eu fiquei muito contente em poder ajudá-lo. Mas ainda não entendo por que eles me cortaram de Glory e puseram outra pessoa do próprio Estúdio Extreme para fazer o trabalho de arte-final (após o nº 9 do título).

REFLETOR: Talvez eles quisessem economizar no pagamento.

EMIR: É. Se quiseram um arte-finalista mais barato, acabaram pagando por isso. (Riso.)

REFLETOR: Você tem um agente?

EMIR: Sim. Porque o agente sempre sabe como lidar com os editores. Sem os agentes, nós não teríamos trabalho. Se é um trabalho duro para eles, seria até mais duro fazer isto por mim mesmo.

REFLETOR: E sobre " Cartões Sketchagraph "?

EMIR: São esboços autografados muito comuns em convenções de quadrinhos. Quem comercializa tais cartões é a Companhia Fleer. Eu fiz milhares deles há alguns anos. Só uns 100 deles foram de personagens do Universo de Thor - isso sem duplicar uma única pose ! A Fleer vendeu também uma tonelada de cartões da Idade de Prata da Marvel. Fiz muitos deles, usando estilos de desenhistas da época, tais como Jack Kirby, Steve Ditko, John Romita, Ayers!

REFLETOR: Que mais você fez que pode lembrar?

EMIR: Vejamos… eu ajudei Deodato na arte-final de Guerreiras de Jade - umas HQs e capas com Deathkiss. Depois fiz algo para Lady Death e Purgatori, para a Chaos Comics.

REFLETOR: Qual é seu sonho de projeto ?

EMIR: Meu sonho é publicar revistas com meus próprios personagens. Trabalhando em meu próprio projeto, eu posso fazer como quero. Quando se está trabalhando com personagens de outras pessoas, você tem que seguir diretrizes traçadas pela Editora. Isso pode bom por poder trabalhar com grandes pessoas, mas eu também gosto da oportunidade para fazer um projeto que venha de mim, escrevendo, fazendo lápis e arte-finalizando.

REFLETOR: Você tem alguma palavra final para seus fãs ou seus editores?

EMIR: Sim. Por favor, continuem comprando meu trabalho. Sou um profissional, e eu não pretendo desapontá-los.

A partir daqui a entrevista foi complementada por um outro amigo estadunidense de Emir, e postada num sítio da internet

BRIAN: Vou continuar a entrevista deste ponto, pois eu quero saber mais algumas coisas. Emir, algum editor dos EUA quis publicar Velta ?

EMIR: Sim. Pelo que eu soube dois editores se interessaram em publicar Velta. Eu lembro do nome de um deles: Steve Schanes or Steve Scheamus. Eu não sei ao certo.

BRIAN: As negociações não deram certo ?

EMIR: Não. As negociações estavam dando certo com Steve, mas ele deixou de ser editor antes de concluirmos. Os editores para quem meu agent David Campiti ofereceu as histórias de Velta queriam que eu fizesse modificações no corpo dela. Infelizmente, isso não seria possível de fazer, pois Velta já é uma personagem muito conhecida no Brazil e eu não poderia mudar seu corpo, porque seria um desrespeito aos seus fãs.

BRIAN: Quais eram as mudanças que os editores queriam fazer em Velta ?

EMIR: Alguns deles queriam que eu fizesse a bunda dela menor e as coxas bem magras. Eles queriam também que eu desenhasse o busto dela maior e os mamilos menores e menos pontudos.

BRIAN: Eu estou entendendo que o padrão de beleza feminina no Brazil é muito diferente do padrão de beleza dos U.S.A.

EMIR: Sim. A maioria dos homens gosta de mulheres com seios menores e quadris largos, com bunda grande. Por essa razão, Velta tem um corpo que atende aos desejos da maioria do povo brasileiro.

BRIAN: Os leitores tem de ser atendidos em suas preferências, certo ?

EMIR: Certo. Além disso, eu acho que os editores cometem um erro quando querem padronizar a maneira de se desenhar partes de um corpo humano. No mundo real, não existem centenas de mulheres com o mesmo desenho e formato de olhos, de narizes, de bocas e de bustos. Cada pessoa tem seu formato próprio e diferente do formato de outras pessoas. Existem bustos de todos os formatos: pêra, banana, jaca caída, balão empinado, etc. Se eu fosse padronizar os formatos das partes anatômicas, como a maior parte dos editores querem, isso tornaria o desenho chato e repetitivo. Algum leitor poderia reclamar, dizendo, por exemplo: "Este artista desenha as mulheres com os rostos iguais, e só mudam as cores dos olhos e cabelos. Isso não acontece no mundo real."

BRIAN: E porque você não fez uma versão de Velta para os U.S.A. ?

EMIR: Geralmente, os editores brasileiros reproduzem e traduzem os quadrinhos publicados nos EUA. Provavelmente, se Velta fosse publicada nos EUA, numa versão com busto grande e bunda pequena, um dia ela seria traduzida e publicada no Brasil. E isso iria causar uma confusão entre os leitores brasileiros. Muitos iriam perguntar: Qual é a Velta verdadeira - A Velta brasileira ou a Velta norte-americana ?

BRIAN: Eu acho que Nova, a Ginóide, seria mais aceita pelos editores americanos.

EMIR: Talvez. Em termos de anatomia, provavelmente seria bem aceita. Mas, eu nunca tentei vender Nova para os editores dos EUA.

BRIAN: É realmente uma pena eu sempre precisar incomodar meu amigo Jake para traduzir os comics book de Velta. Seria mais fácil para mim que algum editor publicasse Velta no idioma inglês.

EMIR: Se algum deles não quiser mudar o corpo dela, eu aceito. Mas, infelizmente, todos quiseram que eu fizesse mudanças.

BRIAN: O longo cabelo de Velta parece com o da Playmate dos anos 70, Debra Jo Fondren...

EMIR: Eu sei o que você pensou. Velta não foi inspirada por Debra. A primeira vez que vi uma foto de Debra foi em 1978,e Velta já existia há cinco anos. Todo personagem tem uma ou mais de uma fontes de inspiração, que podem ser de pessoas reais ou de outros personagens. A personagem que inspirou a forma física de Velta foi "Pravda", criada pelos artistas belgas Guy Peellaert e Pascal Thomas. Se você quiser saber mais sobre inspirações de Velta, pode copiar algo que eu já escrevi sobre isso.

BRIAN: Eu quero saber.

EMIR: Certo.

BRIAN: Você já pensou em oferecer Velta para Hollywood ? Eu penso que seria um desafio enorme para os produtores de efeitos especiais conseguirem criar uma garota enorme, linda e bem humana interagindo com outras pessoas comuns e muito mais baixas do que ela. Fazer monstros digitais, homens uniformizados pulando acima dos prédios, é muito fácil. Eu queria ver como fariam com Velta.

EMIR: De fato, Brian, seria um desafio e tanto para os efeitos especiais. Eu também gostaria de ver o resultado de algo assim.

BRIAN: Que atriz você acha que poderia interpretar Velta no cinema ?

EMIR: Não sei. Eu não estou assistindo muitos filmes ultimamente e não conheço a maioria das atrizes atuais. Porém, um amigo meu chegou a falar sobre essa hipótese, e sugeriu o nome de Victoria Pratt (Mutant X).

BRIAN: Ah, sim. Victoria é muito sensual e seria uma ótima sugestão. Eu concordo com seu amigo.

EMIR: Mas eu duvido que os produtores de Hollywood quisessem fazer um filme com Velta. Eles tem muitos projetos em andamento e com personagens mais conhecidos que lhes renderiam mais dinheiro do que Velta.

BRIAN: É uma pena.

EMIR: Eu concordo.

BRIAN: Eu achei estranho o Brasil ter editoras diferentes que publicam os mesmos personagens, sem haver rivalidade.

EMIR: Os quadrinhos no Brasil são muito diferentes dos EUA. Por mais sucesso que faça uma personagem, ela não vende tantas revistas como se vende nos EUA. Infelizmente, o povo brasileiro não tem tradição para gostar de leitura, quer seja de quadrinhos ou de livros, e os governos não fazem esforço para incentivar o hábito da leitura, salvo algumas raras iniciativas de algumas Prefeituras ou de Governos Estaduais.

BRIAN: E senti que você está decepcionado com o governo do seu país.

EMIR: Muito decepcionado. Eu só leio notícias falando em aumento de impostos, em corte em orçamentos e outras formas do governo arrecadar dinheiro do povo.

BRIAN: Isso é muito mal.

EMIR: Sim. Com pouco dinheiro, o povo não pode comprar livros ou quadrinhos, além de não ser habituado a ler.

BRIAN: Você não gostaria de morar nos U.S.A. ?

EMIR: Moraria em qualquer país onde não houvesse tanta violência, onde as pessoas respeitassem as outras pessoas, e o governo não se preocupasse tanto em criar impostos.

BRIAN: Vamos voltar aos seus personagens. Nem todos são heróis, certo ? Alguns deles matam os bandidos.

EMIR: Eu prefiro não chamar nenhum deles de heróis. Eles não seguem um código de honra igual, tem defeitos e qualidades, e cada um tem seu próprio senso de justiça, da mesma forma que as pessoas do mundo real. Velta não mata, Nova mata, O Homem de Preto aleija e machuca muito, e Itabira mata o inimigo e ainda pode até comer ele no jantar, pois a maioria dos índios brasileiros dos tempos da colonização portuguesa eram canibais.

BRIAN: Eu ainda não li histórias de Itabira. Ele é um índio da Amazônia ?

EMIR: Não. Ele é um índio da Paraíba, no século XVIII, e é o chefe da Tribo dos Tabajaras.

BRIAN: Há algum personagem seu com ligações com a Amazônia ?

EMIR: A Garota de Borracha adquire seus poderes elásticos de um soro extraído de uma árvore seringueira da Amazônia, mas ela vive no Rio de Janeiro.

BRIAN: Como um fã pode conseguir uma arte original sua ?

EMIR: Nos EUA, é só entrar em contato com o meu agente David Campiti ou seu sócio Graeme Barrows, nos endereços:

David@glasshousegraphics.com

Graemeb@glasshousegraphics.com

www.glasshousegraphics.com

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109 North 18th Street Wheeling, WV 26003 USA

(304) 277-5557/phone

(304) 277-5558/fax

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